Maguila: o Brasil que lutou com as próprias mãos
Ágil, bruto e absolutamente verdadeiro, Maguila: Prefiro Ficar Louco a Morrer de Fome atinge o espectador como um direto limpo no queixo. Não é apenas uma história sobre boxe. É um retrato cru de um homem que escolheu lutar quando tudo ao redor dizia para desistir.
A trajetória de José Adilson Rodrigues dos Santos, o eterno Maguila (1958–2024), parece improvável até para o cinema. Nascido em Aracaju e criado longe de qualquer estrutura esportiva, ele saiu do chão duro da construção civil para se transformar no maior peso-pesado da história do boxe brasileiro. Sem glamour, sem atalhos e sem pedir licença.

Maguila não tinha medo de apanhar, porque tinha mais medo ainda de voltar para a fome. No ringue, era instinto puro. Um estilo agressivo, direto, feito para nocautear e ser nocauteado, se fosse preciso. Foram 85 lutas profissionais, 77 vitórias e 61 nocautes, números que colocaram o Brasil no mapa da divisão mais temida do boxe mundial.
Ele enfrentou gigantes como Evander Holyfield e George Foreman. Perdeu, venceu, caiu e levantou. Mas nunca se escondeu. Cada luta era um recado claro: o Brasil também sabia produzir guerreiros de verdade.
Fora das cordas, Maguila virou personagem nacional. Carismático, espontâneo, muitas vezes incompreendido. Passou pela TV, pela música, pela política e pelo imaginário popular. Era o lutador que falava o que pensava, do jeito que pensava, sem filtro e sem vergonha.
O preço da guerra, no entanto, chegou. Diagnosticado com encefalopatia traumática crônica, consequência das pancadas acumuladas ao longo da carreira, Maguila enfrentou o adversário mais cruel de todos. Ainda assim, tomou uma última decisão de campeão: doou seu cérebro para a ciência, ajudando futuras gerações de lutadores a entenderem os riscos do esporte.
Maguila morreu em outubro de 2024, aos 66 anos. Mas lendas não morrem. Elas ecoam. Nos nocautes, nas histórias exageradas, nas risadas, nas quedas e, principalmente, na coragem de quem escolheu lutar quando era mais fácil desistir.
Porque, no fim, Maguila nunca foi só um boxeador.
Foi um retrato do Brasil que apanha, sangra, mas continua de pé.